Entre a produção e o consumo, alimentos que seriam descartados podem encontrar novos caminhos. Iniciativas de algumas filiadas à Fraternidade – Federação Humanitária Internacional (FFHI) mostram como a articulação entre produtores, comerciantes, voluntários e organizações pode transformar excedentes em alimento, cuidado e recurso para a comunidade.

Instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2019, o Dia Internacional de Conscientização sobre Perda e Desperdício de Alimentos busca a atenção para esse problema e estimular ações para reduzi-lo.

A questão ultrapassa o destino dos alimentos que deixam de ser consumidos. Com eles, também são desperdiçados água, solo, energia e trabalho empregados em toda a cadeia. A redução dessas perdas está relacionada à segurança alimentar, à sustentabilidade dos sistemas alimentares e ao enfrentamento das mudanças climáticas.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), 1,05 bilhão de toneladas de alimentos foram desperdiçadas no mundo em 2022, considerando o varejo, os serviços de alimentação e os domicílios. O volume equivale a quase um quinto dos alimentos disponíveis aos consumidores.

Reduzir o desperdício significa reconhecer o valor dos alimentos e buscar alternativas para que aquilo que ainda pode ser consumido ou reaproveitado encontre um destino adequado.

É nessa perspectiva que experiências desenvolvidas por instituições filiadas à Fraternidade – Federação Humanitária (FFHI) mostram possibilidades concretas de atuação. Na Casa Cristo do Bem, no Rio de Janeiro, no Núcleo-Luz Sagrado Céu, em Belo Horizonte, e no Núcleo-Luz de Figueira, em São Carlos, Imaculada Casa do Alívio do Sofrimento (ICAS), alimentos que poderiam deixar de ter utilidade são encaminhados para pessoas, instituições ou para outros ciclos de aproveitamento.

Quando o excedente encontra um destino

Na Casa Cristo do Bem, a iniciativa começa pelo contato com pessoas que procuram a instituição em busca de alimentos. Após uma entrevista e um cadastro, elas passam a integrar uma lista para recebimento das doações.

A captação ocorre em supermercados previamente agendados. Duas vezes por semana, os alimentos são recolhidos em diferentes estabelecimentos e encaminhados pela própria equipe da Casa. Parte deles é destinada, quinzenalmente, às pessoas cadastradas. Os demais seguem diretamente dos fornecedores para instituições também cadastradas pela Casa.

Um aspecto importante desse trabalho é que os alimentos não permanecem armazenados. Segundo Bia Vergara, responsável pela Casa Cristo do Bem, a distribuição é feita imediatamente após as coletas.

A experiência também evidencia que o combate ao desperdício depende da disposição de diferentes setores para estabelecer novas formas de cooperação. A participação dos supermercados é fundamental para que a operação aconteça. São empresas que já demonstram preocupação com o não desperdício e permitem que alimentos ainda aproveitáveis sigam para outros destinos.

Para Bia Vergara, o desperdício também revela uma dificuldade de comunicação e conexão entre aqueles que possuem excedentes e aqueles que deles necessitam. A atuação da Casa busca justamente criar essa ligação.

“Fazemos a nossa parte”, resume.

Um elo entre o excedente e a necessidade

No Núcleo-Luz Sagrado Céu, em Belo Horizonte, a experiência teve início há vários anos, quando colaboradores recebiam doações de alimentos e preparavam sopa para distribuição para pessoas em situação de rua. Com o tempo, a iniciativa passou a priorizar a distribuição dos alimentos in natura.

Atualmente, frutas, legumes e verduras são captados na CEASA, com produtores independentes e em um sacolão. As coletas ocorrem às segundas e sextas-feiras, com veículos próprios da Associação e carros particulares de colaboradores do Núcleo-Luz.

Depois de chegarem ao Núcleo-Luz, os alimentos passam por triagem e são separados para instituições cadastradas. Aqueles que já estão em estado de decomposição seguem para o composto orgânico, evitando que mesmo esses resíduos sejam simplesmente descartados.

Para Madre Esmeralda de Maria, integrante da equipe de coordenação do Núcleo-Luz Sagrado Céu, existe um excedente de alimentos tanto no comércio quanto entre os produtores que, sem uma destinação adequada, pode acabar no descarte. A atuação de pessoas dispostas a recolher esses produtos e encaminhá-los a quem precisa cria um fluxo entre duas situações que coexistem: a existência de alimentos disponíveis e a dificuldade de acesso à alimentação.

A experiência mostra que, em alguns casos, o que falta não é necessariamente o alimento, mas uma conexão capaz de fazer com que ele chegue ao destino adequado.

“Onde há uma quebra de fluxo”, explica Madre Esmeralda, “é possível atuar como elo entre as duas situações.”

A perspectiva amplia a compreensão sobre o desperdício. Evitá-lo pode significar também criar redes de colaboração capazes de aproximar produtores, comerciantes, instituições e pessoas que necessitam de alimentos.

Aproveitar também é transformar

Em São Carlos, no Núcleo-Luz de Figueira – Imaculada Casa do Alívio do Sofrimento, a experiência começou de maneira simples. Uma colaboradora da Rede Luz perguntou a um feirante se ele poderia doar frutas, legumes e verduras que sobrassem da feira. A proposta foi aceita e, a partir dessa primeira doação, outros feirantes passaram a participar.

Hoje, aproximadamente 17 feirantes da feira que acontece às terças e aos sábados doam alimentos ao Núcleo-Luz. Nos dias de feira, dois voluntários fazem a coleta. Como forma de agradecimento, também ajudam os feirantes a desmontar as barracas e a carregar seus pertences e as caixas de alimentos.

Ao chegar ao Núcleo-Luz, os produtos são selecionados. Parte é destinada ao consumo da própria instituição e parte segue para doação a um grupo de voluntários que mantém um serviço organizado de entrega de alimentos a famílias em situação de necessidade. As frutas, verduras e legumes complementam as doações de alimentos não perecíveis.

A experiência também mostra que o aproveitamento pode ir além da distribuição imediata. Alimentos considerados pelos feirantes inadequados para a venda por sua aparência, mas ainda próprios para utilização, podem receber novos destinos.

Higienização e desidratação, branqueamento e congelamento, produção de geleias, compotas, conservas, doces e mingaus estão entre as possibilidades encontradas pela equipe. Os resíduos que não podem ser aproveitados para alimentação também podem ser transformados em composto orgânico para enriquecer a terra.

“A criatividade, nesse caso, torna-se uma ferramenta de redução do desperdício”, pontua Madre Maria del Verdún, que acompanha essa iniciativa no Núcleo-Luz.

Uma questão ambiental, social e coletiva

O desperdício de alimentos também precisa ser compreendido dentro de uma cadeia mais ampla. Antes de chegar à mesa, cada alimento passou por etapas de produção, colheita, transporte, armazenamento e distribuição. Em cada uma delas, recursos foram mobilizados.

Por isso, reduzir perdas e desperdícios é também uma forma de utilizar melhor água, solo, energia, trabalho e outros recursos empregados nos sistemas alimentares. A ONU relaciona a redução das perdas e desperdícios à segurança alimentar, à sustentabilidade e ao enfrentamento das mudanças climáticas.

A meta está presente nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente no ODS 12, que trata de consumo e produção responsáveis. A meta 12.3 estabelece o compromisso de reduzir pela metade o desperdício de alimentos per capita no varejo e no consumo e diminuir as perdas ao longo das cadeias de produção e abastecimento até 2030.

As experiências das filiadas da Fraternidade-Federação Humanitária (FFHI) mostram que essa transformação não depende apenas de grandes estruturas. Ela também pode começar em uma feira, em um supermercado, em um centro de abastecimento ou na decisão de uma pessoa de perguntar se aquilo que sobraria pode ser destinado a alguém.

O sentido de uma data

Criar uma data internacional não resolve, por si só, o problema do desperdício. Sua importância está em tornar o tema mais visível e estimular governos, empresas, organizações e pessoas a reconhecerem sua responsabilidade na cadeia alimentar.

Foi esse o propósito da Assembleia Geral da ONU ao instituir o 29 de setembro: ampliar a conscientização e promover ações para reduzir a perda e o desperdício de alimentos em todo o mundo.

As três experiências apresentadas mostram diferentes pontos dessa rede. Na Casa Cristo do Bem, supermercados participam de uma estrutura de coleta e distribuição. No Núcleo-Luz Sagrado Céu, excedentes da CEASA, de produtores e de um sacolão são encaminhados a instituições. No Núcleo-Luz de São Carlos, feirantes e voluntários estabelecem uma parceria que permite aproveitar alimentos para consumo, transformação e compostagem.

São iniciativas distintas, mas partem de um princípio comum: antes de ser descartado, um alimento pode ter outro destino.

Repensar o desperdício é olhar para os fluxos, hábitos e relações que determinam o destino dos alimentos. É buscar novos caminhos para o que ainda pode ser consumido ou transformado e, quando isso não for possível, devolver seus resíduos à natureza.

Em uma sociedade na qual convivem excedentes e pessoas com dificuldade de acesso à alimentação adequada, reduzir o desperdício também significa criar conexões. O 29 de setembro reforça a importância de ampliar essas conexões e transformar conscientização em ações concretas.