Celebrado em 5 de setembro, o Dia Internacional da Caridade propõe uma reflexão que permanece sempre atual: como responder às necessidades do nosso tempo sem reduzir o outro à sua condição de vulnerabilidade? As experiências desenvolvidas pelas filiadas da Fraternidade – Federação Humanitária Internacional (FFHI) mostram diferentes possibilidades de atuação, que passam pelo acolhimento, pela formação, pela saúde, pelo fortalecimento da autonomia, pela convivência comunitária e pelo cuidado com os diferentes Reinos da Natureza.

A caridade deve ir além da ação pontual, deve ser compreendida como uma prática contínua de responsabilidade e atenção ao outro. Um exercício que também transforma quem serve e amplia a capacidade de reconhecer que, em uma sociedade marcada por tantas diferenças e desigualdades, o cuidado com a vida deve ser uma tarefa compartilhada.

Da assistência à construção de autonomia

Na Missão Roraima Humanitária, realizada pela Fraternidade – Missões Humanitárias Internacionais (FMHI), com o apoio da Comunidade-Luz Flor do Sagrado Tepui, esse entendimento está presente no trabalho desenvolvido junto a indígenas venezuelanos refugiados e migrantes e também indígenas brasileiros. A atuação, que teve início com o acolhimento ainda nas ruas de Boa Vista, depois se estendeu para os abrigos da Operação Acolhida, também passou a envolver formação, fortalecimento cultural e apoio ao desenvolvimento de possibilidades de autonomia.

Entre as ações estão a capacitação, o fortalecimento do potencial empreendedor e a realização de feiras interculturais, que contribuem para a valorização da cultura e para a geração de renda. Para Frei Thomas, coordenador da Comunidade-Luz Flor do Sagrado Tepui, o serviço procura considerar tanto as necessidades materiais quanto a história e a dimensão humana de cada pessoa atendida.

“Se por um lado existe um fortalecimento das bases materiais, das possibilidades, dos recursos de capacitação, do fortalecimento, do potencial empreendedor desses indígenas com quem nós estamos trabalhando, existe um outro trabalho que é o de um atendimento muito personalizado, muito respeitoso àquilo que existe ali como uma presença para além da pessoa humana.”

Esse acompanhamento pode permanecer mesmo depois de mudanças importantes na vida dos participantes, como a saída dos abrigos e a conquista de uma residência ou de uma fonte de renda. Segundo Frei Thomas, a proposta é manter uma rede de apoio que acompanhe esses processos de fortalecimento e autonomia.

Caridade como compromisso

No Núcleo-Luz de Figueira em São Carlos (SP) – Imaculada Casa do Alívio do Sofrimento (ICAS), a caridade se expressa em diferentes frentes de serviço e cuidado. Por meio do Programa Social Fraterno Servirhá 12 anos são desenvolvidas atividades lúdico-pedagógicas, oficinas de informática e ações do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos que contribuem para o desenvolvimento de habilidades, a convivência e a construção de vínculos.

Essa perspectiva de cuidado também se amplia com a construção do Hospice Casa de São Lázaro, que será destinado à assistência integral a pacientes que atravessam doenças graves que ameaçam a continuidade da vida e seus familiares. A proposta contempla cuidados paliativos que serão realizados por uma equipe multiprofissional, com atenção às diferentes dimensões do sofrimento, à autonomia do paciente e à dignidade ao longo do processo de adoecimento e finitude.

Para Madre Maria Cleonice, coordenadora do Núcleo-Luz, a caridade não se limita à ajuda diante de uma necessidade, mas envolve uma transformação na maneira de se relacionar com o outro e uma disposição permanente para o serviço.

“Vivemos a caridade como uma fonte que possibilita a transformação, porque, ao nos colocarmos a serviço dos demais, também aprendemos a renunciar por eles. Nesse relacionamento, ampliamos nossa compreensão sobre o outro e sobre nós mesmos. A caridade, portanto, não deveria se limitar à forma ou ao ato de suprir uma necessidade, mas se expressar também como um compromisso ético, baseado na bondade, na responsabilidade e na gratidão por poder servir.”

Madre Maria Cleonice aponta ainda a superação da indiferença como um dos desafios relacionados à prática da caridade. Nesse sentido, aproximar-se das necessidades do outro pode abrir espaço para a reconciliação, para o reconhecimento mútuo e para a reconstrução de vínculos.

Diferentes necessidades, diferentes formas de cuidado

Na Comunidade-Luz Nova Terra, localizada em Teresópolis – RJ, a prática da caridade também se relaciona ao cuidado com as comunidades do entorno e com os Reinos Animal e Vegetal, dentro de uma proposta de vida fraterna baseada na doação, no serviço e na atenção às diferentes dimensões da existência.

Para Galileia, da equipe de coordenação da Comunidade-Luz Nova Terra, esse cuidado não se restringe às necessidades materiais. Ela destaca a importância de uma atenção que também considere situações de sofrimento e fragilidade que nem sempre são visíveis.

“Devemos viver a caridade com aquele que necessita, percebendo que ela pode se manifestar de diferentes formas. A gente vai vivendo a caridade e percebendo que o âmbito dela transcende o que nós vemos.”

As diversas ações desenvolvidas englobam aulas de artesanato e pintura, a Casa Coração de São José onde recebem e entregam doações. Além da distribuição de alimentos excedentes das colheitas realizadas pela própria Comunidade-Luz. O que é produzido e não destinado ao consumo interno é compartilhado com pessoas e famílias das comunidades do entorno, ampliando o alcance do trabalho realizado no campo.

Para os integrantes da Comunidade-Luz Nova Terra, a caridade pode ser compreendida como a disposição de amar o próximo e praticar o bem de forma desinteressada, sem esperar algo em troca. Essa atitude, também se estende para além das necessidades humanas, e alcançam os diferentes Reinos da Natureza.

Há mais de 20 anos, a Comunidade-Luz desenvolve ações voltadas ao cuidado e à proteção de animais, com o propósito de reduzir situações de maus-tratos e exploração. Entre essas experiências estão os cavalos da Ilha de Paquetá (RJ), resgatados do uso comercial e atualmente mantidos em um ambiente onde podem viver de acordo com sua natureza, em liberdade, junto a outros animais.

A experiência expressa uma compreensão de caridade que ultrapassa a assistência imediata e considera também a responsabilidade humana diante das demais formas de vida. Oferecer condições para que os animais vivam sem exploração e com dignidade é uma forma concreta de reconhecer seu lugar na criação.

“É muito bonito vê-los juntos, sem precisar separá-los. Poder oferecer essa possibilidade de vida aos animais, para que possam chegar ao final de sua existência sendo aquilo que são, livres, convivendo e se relacionando entre si, também é uma forma de praticar o bem de maneira desinteressada”, expressam os residentes da Comunidade-Luz.

Caridade na Simplicidade

As experiências das diferentes filiadas da Fraternidade – Federação Humanitária (FFHI) mostram que a caridade pode assumir formas diversas conforme as necessidades encontradas em cada território: acolher, oferecer condições para que alguém desenvolva novas possibilidades, acompanhar processos de saúde, fortalecer vínculos, compartilhar alimentos ou criar espaços de convivência. A caridade, na simplicidade do dia a dia, é a disposição para perceber o que cada situação requer e encontrar, no serviço ao outro, maneiras concretas de contribuir para o bem comum.